Sexta-feira, Julho 16, 2004

O Alquimista Carioca

Seu nome de pia era Midas, mas só o conheciam pelo apelido: Diadora. Quando pequeno ouviu a história dos antigos alquimistas, que fabricavam ouro a partir da manipulação de outros metais. Sonhou que era esse  seu destino e decidiu lutar por isso - mas a vida é dura, e devolveu ao Diadora um caminho torto.

Na faculdade de química - Não foi fácil chegar até lá, não para ele, filho de um borracheiro bêbado com uma lavadeira, do Morro dos Desejos- más influências e a ansiedade por uma vida abastada o levaram a buscar soluções alternativas de retorno imediato. Virou dono do morro, ao seu modo, um alquimista moderno - transformava chumbo em ouro, embalado pelo brilho do pó branco.
Boca de Ouro é um clássico do cinema nacional
Midas logo entendeu que refinar a júlia era um bom negócio. Daí para assumir boa parte da cadeia de valores, até o cliente final,  foram alguns anos e muitos presuntos. Ganhou muito dinheiro, muito poder,  sempre ainda obcecado com o metal dourado,  cada vez mais.  Quando viu o filme "Boca de Ouro", delirou, quis uma igual.

Sabia dos riscos, porém não dava mais para sair do labirinto. Sentiu o cheiro da Morte, âmbar e amarelado.  Faltava pouco, a sublimação estava próxima, por isso decidiu mandar banhar sua própria barba em ouro. Surgiu aí o desejo do último suspiro ser provocado por uma bala de ouro. Claro,  com a fusão do metal nobre, sua alma se transmutaria em busca da liberdade, da purificação da matéria.

Foi aí que, infelizmente, eu acordei - antes do final. Vim de carro para o trabalho pensando em Diadora, em como ele merecia depois de tudo, um final dourado.  Então, ao contrário do trecho acima, filme onírico que assisti de camarote,  o que vem a seguir eu inventei:

Diadora mandou fazer uma única bala de ouro maciço,  em segredo.  Chamou seus três melhores amigos para uma festa reservada, com 12 mulheres - 3 para cada. "Quero comemorar meu esplendor", justificava.  Alugaram uma casa distante,  levaram uma caixa de whisky e meio quilo purinho - naquela noite,  nada poderia faltar.  Deixou o berro esquecido em cima da mesa,  a libertadora pedra filosofal engatilhada.  E abusou a noite inteira, com aquela vontade de quem sabe que é a última vez -  afinal, não tinha dúvida de que nunca mais veria a luz dourada nascer no céu azul.

:: por FerVil :: 6:10 PM Permalink | |



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